Alessandro Marimpietri

Nova geração experimenta uma sexualidade mais livre, cheia de possibilidades e longe da militância

Nana Brasil e Lorena Caliman

Apressados, hedonistas, pouco engajados, donos de identidades múltiplas, consumistas. Muito se diz sobre a geração que agora passa por essa espécie de parêntese entre infância e vida adulta. Para além da “fase de descobertas”, a adolescência de hoje vivencia experiências que são resultado de mudanças comportamentais extremamente rápidas. As diferenças em relação à geração de cinco anos atrás – nem precisa ir muito longe – são visíveis e significativas. E a sexualidade, como de costume, está no centro das atenções e discussões.





Foto: Folha On Line

Foto: Folha On Line





Mas, se antes falava-se apenas de virgindade, DSTs, relações com o sexo oposto e métodos contraceptivos, atualmente o leque é bem mais variado. Um aspecto importante é a maior liberdade experimentada hoje – tanto para assumir uma identidade quanto para, simplesmente, rejeitar qualquer tipo de rotulação. Há um desejo dos garotos e garotas de se auto-afirmarem como capazes de definir suas preferências – e, ao mesmo tempo, de não definirem quem (ou o quê), de fato, são.

Transformações

O que de imediato chama a atenção é a flexibilização dos papéis sexuais que se vê, sobretudo, entre os adolescentes. Até pouco tempo, a relação “menino com menina” era quase onipresente. Mesmo os jovens que se descobriam gays acabavam mantendo relações heterossexuais durante um tempo e a aceitação de tal característica costumava ser lenta e dolorosa. Hoje, a tendência é que a “saída do armário” seja cada vez mais precoce e menos traumática. A liberdade de experimentação – que recusa a imposição da heterossexualidade – também faz parte dessa nova realidade, deixando os mais velhos ora escandalizados, ora com uma ponta de inveja. O que era a regra, agora é mais uma possibilidade.

Segundo o psicanalista e doutor em educação Alessandro Marimpietri, essa flexibilização dos papéis sexuais acontece porque todos os vínculos contemporâneos estão fluidificados: “Os vínculos estão líquidos, mutantes, camaleônicos, obsoletos antes mesmo de acontecerem. Isso faz com que todas as relações no mundo se alterem e a sexualidade não está excluída disso”. A mudança de paradigmas da geração dos anos 70 para a atual é muito clara. O que sustentava o entendimento de adolescência e juventude era uma ética do dever. Os pais dos jovens de hoje conviveram com o cerceamento da liberdade, enfrentaram a Ditadura Militar e buscaram transformações políticas e sociais. Marimpietri afirma que o laço social contemporâneo deixou de ser regido pela ética do dever e passou a ser regido pela ética do desejo: “Hoje, se você perguntar a um grupo de pais o que eles querem que os filhos sejam, a maioria vai dizer que quer que sejam felizes. 30 anos atrás, os pais diriam: honestos, trabalhadores, pais de família”.

Marimpietri discorda dos que consideram a adolescência atual desprovida de leitura, desintegrada, sem projetos, e rejeita o saudosismo que costuma permear comparações, segundo ele, injustas: “Isso destrói as chances desses meninos de serem outra coisa. O mundo não é o mesmo dos anos 70”, argumenta. Por outro lado não deixa de pontuar algumas peculiaridades, como o hedonismo: “Hoje, os jovens de 16 anos querem viver todas as experiências intensamente. Eles são sensoriais, imagéticos, pragmáticos e apressados. Precisam viver tudo ao mesmo tempo”.

E esse desenfreamento das relações sociais está presente também na adolescência e na sexualidade. Ainda segundo o psicólogo, a vivência sexual hoje, além de mais plural e intensa, começa a dar outros sinais de sua formação: a espetacularização das práticas sociais. Um bom exemplo de exposição acentuada é o das “pulseiras do sexo”, acessórios coloridos que viraram moda e tornam públicas as predileções sexuais dos adolescentes que resolvem usá-las.

Dentro da escola





Alunos do Colégio Oficina, considerado o mais liberal entre os colégios particulares.  Foto: Lorena Caliman

Alunos do Colégio Oficina, considerado o mais liberal entre os colégios particulares. Foto: Lorena Caliman





Basta dar uma volta nas escolas com o olhar um pouco mais atento para perceber algumas mudanças. Segundo a ex-aluna do Colégio Cândido Portinari B. A., 18 anos, a geração da irmã, cinco anos mais velha, é bem diferente da sua: “No colégio, acabou aquela modinha de meninas superfemininas. Agora a maioria usa All Star e blusas mais folgadas. Os meninos são bem metrossexuais, fazem sobrancelha e depilação. Aí eles ficaram mais tolerantes com os gays, eu acho”. Além disso, casais homossexuais passaram a se manifestar publicamente ainda na adolescência e alguns professores estão admitindo a homossexualidade nas escolas: “Ano passado, quando eu terminei o colégio, já tinha mais de um professor gay assumido. Os alunos gays também têm uma aceitação muito maior hoje”, conta B.A.

No ano de 2005, quando estudava para o vestibular, as coisas foram um pouco mais complicadas para o universitário G.S. “A sociedade, de início, classifica todos como hetero e sair desse rótulo foi bem difícil. De um dia para o outro todos da escola tinham certeza de algo que nem eu mesmo tinha”. Por conta de um boato espalhado de maneira maldosa pela internet, a homossexualidade do estudante virou alvo constante de comentários e o afastou das aulas por um período. Ele estudou no mesmo colégio de B.A., mas, naquele momento, alunos ou professores assumidamente gays ainda eram uma realidade distante. Na época, a escola se colocou como um suporte, abrindo as portas para o diálogo. Mas os professores e orientadores não conseguiram evitar o afastamento de grande parte dos colegas: “Isso talvez tenha sido o pior. Ver os amigos que estavam com você durante o ensino médio sumirem de uma hora pra outra sem sequer conversar”, lembra.

O jovem disse achar boa essa nova relação das pessoas com as (in)definições sexuais e a tendência a se enquadrarem cada vez menos em categorias. “Quando um grupo, ou você mesmo se rotula de algo, fica mais difícil sair disso, você está socialmente preso a algo que talvez você nem tenha certeza que é”. Já em relação ao comportamento atual dos adolescentes, ele pondera: “Quanto a essa liberdade, sou um pouco cético. Agora parecer liberal e alternativo está na moda. E quando a moda acabar? Mas se eu estiver errado e isso for realmente um processo de transformação, então é excelente”.

Modismo ou não, o fato é que as escolas estão lidando com situações novas, como conta B.A.: “Uma amiga minha começou a namorar uma menina do colégio que ela estudava e falou com a coordenadora: eu sou gay, essa é minha namorada e a gente quer se beijar na frente de todo mundo”. Ela diz ainda que várias de suas amigas ‘ficam’ com meninos e meninas, e não se classificam como homossexuais ou bissexuais, não têm escolha definida: “Uma delas já ficou e namorou com meninas, mas hoje em dia tem um namorado fixo. Ela não se rotula. Eu também não me defino”, revela.

Escola e família

No Colégio Oficina, localizado no bairro da Pituba, duas alunas se beijaram durante o intervalo e fizeram com que essa discussão viesse ainda mais à tona. Considerado liberal por muitos, o Oficina se viu numa situação embaraçosa. Segunda a psicóloga Júlia Viana, coordenadora pedagógica do 2º ano do Ensino Médio, a escola é uma micro-sociedade: “Há os que ocultam e os que demonstram abertamente. Mas, como são jovens, às vezes fazem de maneira exacerbada. Vão lá fora, se beijam. No caso das meninas, nós chamamos para conversar. Elas precisam saber que toda escolha tem seu ônus, na escola e na sociedade em geral”.

Na opinião da psicóloga, essa é a geração da não-escolha, uma geração imediatista que busca o prazer sem levantar bandeiras e quer experimentar tudo em todos os campos – na sexualidade, na droga, no consumo. Mas ela afirma que a escola é um espaço de trabalho e produção de saber e essa é a orientação dada aos estudantes, a fim de explicar que não é ali que os casais (independentemente da orientação sexual) devem se manifestar. Assim, para a psicóloga, colégio não é lugar de namorar.

Segundo B.A., que estudou por um período no Oficina e tem amigos ali, os alunos não levam a sério o fato de ser proibido namorar no colégio: “a galera não tá nem aí pra essas regras”. Na opinião da estudante, houve uma geração “rebelde e liberal” no Oficina, tanto sexualmente quanto em outros aspectos. Ela destaca, além das drogas e do álcool, os dreadlocks exibidos por alguns meninos e meninas. Mas B.A. afirma que o colégio reprimiu essa turma mais transgressora e os mais novos começaram a se enquadrar: “O Oficina encaretou um pouco. As meninas que se beijaram são minhas amigas. Elas foram chamadas e a coordenação disse que isso comprometia a imagem do colégio, que gerava escândalo. Mas o beijo em si não foi nada demais”.

Júlia Viana, por sua vez, reconhece que as escolas nem sempre conseguem acompanhar a velocidade com que as coisas acontecem. Além da relação por vezes conflituosa entre escola e alunos, outro ponto fundamental é o envolvimento dos pais no meio disso tudo. De acordo com a psicóloga, existe, de fato, um embate entre o colégio e os pais: “São 600 alunos, 1200 pais, que pensam das maneiras mais diversas. É impossível mudar um posicionamento para agradar a todos. A gente promove palestras e reuniões porque as famílias não acompanham o pensamento dos jovens”.





Duas alunas chamaram a atenção com um beijo gay na porta do Colégio Oficina.  Foto: Lorena Caliman

Duas alunas chamaram a atenção com um beijo gay na porta do Colégio Oficina. Foto: Lorena Caliman





Mesmo sabendo que não podem agradar a todos os pais, os colégios particulares se preocupam, sim, com a imagem institucional e as reações que um beijo gay pode provocar. Alessandro Marimpietri ressalta, contudo, que a escola não é uma empresa como outra qualquer: “É uma instituição ideológica, vende valores, vende o intangível. O discurso clientelista atrapalha. A escola tem que dar a cara pra bater, tem que assumir uma posição”, avalia. Tanto violência e excesso de autoritarismo quanto negligência e silenciamento são considerados posicionamentos retrógrados pelo psicanalista.

Avanços

O comportamento e as experiências dos adolescentes de hoje não estão descolados de um contexto sócio-cultural mais amplo. Apesar das rotulações e preconceitos ainda existirem, alguns fatos recentes chamam a atenção. Um deles é a criação do termo “bi-curious”, usado para se referir a alguém que não se identifica como bissexual ou homossexual, mas demonstra curiosidade e interesse por pessoas do mesmo sexo. Ou, ainda, para alguém que geralmente se identifica como homossexual, mas também deseja se relacionar com o sexo oposto. Mais voltada para o sexo feminino, a tendência “bi-curious” tem a internet como aliada. O site shybi.com, por exemplo, é feito para mulheres que buscam novas experiências e querem trocar informações com privacidade e discrição.

Recentemente, foi concedida, na Austrália, a primeira certidão de “Gênero Não-Específico” a um cidadão. Norrie May-Welby, que nasceu na Escócia e foi registrado como homem, aos 23 anos fez tratamento hormonal e cirurgias para mudar de sexo. Porém, ele não ficou satisfeito com o resultado e interrompeu o tratamento, passando a se denominar como “neutro”. Em notícia publicada no site thescavenger.net, há o relato de que médicos não conseguiram determinar o sexo de Norrie (hoje com 48 anos de idade), nem por características físicas, nem comportamentais.

O fenômeno pop Lady Gaga, ícone da nova geração, é outro exemplo que ilustra a tendência contemporânea. Seja para promover sua imagem ou não, a cantora incita dúvidas sobre sua sexualidade e comportamento andrógino. O tipo de Gaga, contudo, não é novo: a jovem pode ter se inspirado na conhecida, e, na época, inovadora imagem do cantor David Bowie, primeiro artista considerado andrógino na atualidade.

Papéis continuam existindo

Mas, como tudo faz parte de um processo e as transformações (ainda) precisam de tempo para se concretizar, parece que vai demorar até que os papéis de gênero sejam, de fato, relativizados. Alessandro Marimpietri não vê nessas experimentações da juventude uma necessidade de romper estruturas, de gerar um movimento: “Eu não acho que os papéis de gênero estão mudando por causa da flexibilidade das experiências sexuais. Continuam existindo meninos e meninas machistas, mas com experiências múltiplas”. A velocidade com que essa geração vive e absorve as novidades pode influenciar para uma melhor aceitação do que é diferente. Mas, se a aceitação está na moda, como disse G.S., é preciso atentar para que isso não se torne apenas uma pseudo-aceitação, como opina Marimpietri, que considera ainda superficial esse elogio às diferenças.

Os estudiosos da chamada Teoria Queer – que trata da ambigüidade, da multiplicidade e da fluidez das identidades sexuais – propõem justamente uma pedagogia que se diferencie dos programas multiculturais nos quais as diferenças (de gênero, sexuais ou étnicas) são apenas toleradas ou tratadas como curiosidades exóticas. Num processo mais denso, seriam desconstruídas a naturalização e a superioridade heterossexual, subvertendo os binarismos e pensando a sexualidade, os gêneros e os corpos de maneira mais plural e múltipla.

Matéria retirada de: www.vinteuns.cinzoo.com.br



Outros:

subir descer


This movie requires Flash Player 9

Acesso Restrito


Agência Digital ZWA - Salvador - Bahia

Iguatemi Business - Flat, n° 761, Sala 505
Rua das Alfazemas, Iguatemi, Salvador - Bahia - Brasil - CEP: 41820-710
Telefones: 55 71 3354-1424 | 71 9204-0171
e-mail: contato@desenvolverbahia.com.br

© Copyright Desenvolver - Psicologia, Psicanálise e Educação.